O sublime e elevado mistério da Ave-Maria

Conheça um pouco mais o mistério sublime e elevado da Ave-Maria, que nem mesmo os homens mais santos e doutos são capazes de compreender e expressar em sua plenitude.

A Ave-Maria, também conhecida como “Saudação Angélica”, é um mistério tão sublime e elevado que o Beato Alano de la Roche julgou que nenhuma criatura pode compreendê-la e que somente nosso Senhor Jesus Cristo, nascido da Santíssima Virgem Maria, pode explicá-la na sua totalidade. A excelência da Ave-Maria se deve principalmente a Virgem de Nazaré, – a quem esta oração foi dirigida, na Anunciação do mistério da Encarnação do Verbo (cf. Lc 1, 28) – para quem foi trazida dos Céus, e ao Arcanjo São Gabriel, que a pronunciou pela primeira vez.


Anunciação do Arcanjo São Gabriel a Virgem Maria.

A Ave-Maria é de uma profundidade tal que resume toda a teologia católica sobre Nossa Senhora. Nesta saudação do Anjo, temos um louvor e uma invocação. O louvor contém tudo o que faz a verdadeira grandeza da Virgem Mãe de Deus e a invocação contém o que devemos a ela e tudo o que podemos esperar de sua bondade maternal em relação a nós.

As razões bíblicas e teológicas da Saudação Angélica

A Santíssima Trindade revelou a primeira parte da Ave-Maria através do Arcanjo São Gabriel (cf. Lc 1, 28); Santa Isabel, iluminada pelo Espírito Santo, acrescentou a segunda (cf. Lc 1, 42); e a Igreja Católica, no Concílio de Éfeso, no ano 431, concluiu a oração, após ter definido que Nossa Senhora é verdadeiramente “Theotókos”, palavra grega que significa “Mãe de Deus”. A partir desse Concílio, Nossa Senhora passou a ser invocada com as seguintes palavras: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

Pela Ave-Maria, Deus se fez homem, uma Virgem se tornou Mãe de Deus, as almas dos justos foram salvas, as ruínas do Céu foram reparadas e os tronos vazios foram preenchidos, o pecado foi perdoado, a graça nos foi dada, os doentes foram curados, os mortos ressuscitados, os exilados chamados de volta, a ira da Santíssima Trindade foi aplacada, e os homens obtiveram a vida eterna. Nesse sentido, a Ave-Maria é o arco-íris, o sinal da clemência e da graça que Deus fez ao mundo (cf. Gn 9, 14-15).

Ainda que a Saudação Angélica se dirija diretamente a Mãe de Deus e contenha seus louvores, nem por isso ela é menos gloriosa a Santíssima Trindade, porque toda a honra que prestamos a Santíssima Virgem é também dirigida a Deus como causa de todas as suas perfeições e virtudes. “Deus Pai é glorificado quando honramos a mais perfeita de suas criaturas. Deus Filho é glorificado porque louvamos sua puríssima Mãe. O Espírito Santo é glorificado porque admiramos as graças com as quais Ele cumulou sua Esposa”[1]. Da mesma forma que a Virgem de Nazaré, em seu belo cântico “Magnificat”, atribuiu a Deus os louvores e as bênçãos que Santa Isabel dirigiu a ela, Ela também remete prontamente a Deus os elogios e as bênçãos que lhe prestamos na Ave-Maria.

As revelações de Nossa Senhora a Santa Matilde

Santa Matilde desejava saber qual o melhor modo de testemunhar sua devoção para com Nossa Senhora. Certo dia, ela foi arrebatada em espírito e a Virgem Santíssima lhe apareceu, trazendo no peito a Ave-Maria escrita em letras de ouro, e revelou-lhe o melhor meio de testemunhar sua devoção:

Sabe, minha filha, que ninguém pode me honrar com uma saudação mais agradável do que aquela que me fez apresentar a adorabilíssima Trindade, e pela qual Ela me elevou à dignidade de Mãe de Deus.

Pela palavra Ave, que é o nome de Eva, soube que Deus, por sua onipotência, me tinha preservado de todo o pecado e das misérias às quais a primeira mulher foi sujeita.

O nome Maria, que significa dama de luzes, assinala que Deus me cumulou de sabedoria e de luz, como um astro brilhante, para iluminar o céu e a terra.

As palavras “cheia de graça” me representam que o Espírito Santo me cumulou de tantas graças que eu posso largamente fazer participar delas aqueles que as pedirem por minha mediação.

Dizendo “o Senhor é convosco” renova-se em mim a alegria inefável que senti quando o Verbo eterno Se encarnou em meu seio.

Quando me dizem “bendita sois vós entre as mulheres”, louvo a misericórdia divina que me elevou a esse alto grau de felicidade.

E as palavras “bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”, todo o céu se alegra comigo por ver Jesus, meu Filho, adorado e glorificado por ter salvo os homens[2].

A Ave-Maria: sinal de condenação ou de salvação

Entre as revelações que a Santíssima Virgem fez ao Beato Alano de la Roche – confirmadas sob juramento por esse grande devoto de Maria – há três mais notáveis:

A primeira: é um sinal provável e próximo de condenação eterna ter negligência, tibieza e aversão pela Saudação Angélica que reparou o mundo;

A segunda: aqueles que têm devoção a essa saudação divina possuem um grandíssimo sinal de predestinação;

A terceira: aqueles que receberam do Céu o favor de amar a Santíssima Virgem e de A servir por amor, devem ser extremamente zelosos em continuar a amá-La e servi-La, até que Ela os coloque no Paraíso, por meio de seu Filho, no grau de glória compatível com seus méritos[3].

Todos os hereges, que são filhos do demônio e portam sinais evidentes de reprovação, têm horror à Saudação Angélica. Eles até aprendem o Pai-nosso, mas não a Ave-Maria. Além disso, prefeririam levar uma serpente consigo do que um Terço ou um Rosário. “Entre os católicos, aqueles que levam a marca da condenação também desprezam o Rosário, deixando de rezá-lo, ou fazendo-o com tibieza e às pressas. Ainda que eu não acreditasse no que foi revelado ao Beato Alano, bastaria a minha experiência pessoal para me convencer dessa verdade” [4], disse São Luís Maria. A esse respeito, o Santo testemunha:

De fato, vemos que as pessoas que em nossos dias professam doutrinas novas condenadas pela Igreja descuidam muito, apesar das aparências de piedade, da devoção ao Rosário, e frequentemente a afastam do espírito e do coração dos outros, alegando os mais variados pretextos. Elas evitam condenar abertamente, como o fazem os calvinistas, o terço, o Rosário, o escapulário; mas a maneira como se portam em relação a essas coisas é tanto mais perniciosa quanto mais sutil[5].

As graças derramadas através da Saudação Angélica

A Ave-Maria é um orvalho celeste e divino que, caindo em nossas almas, comunica-nos admirável fecundidade para produzir toda espécie de virtudes. Quanto mais nossa alma é orvalhada por essa oração, mais ela se torna lúcida no espírito, ardente no coração e fortificada contra todos os seus inimigos.

A Saudação Angélica é uma flecha penetrante e ardente. Quando na pregação unimos esta oração à palavra de Deus que anunciamos, damos a essa palavra a força para atravessar, tocar e converter os mais endurecidos corações, ainda que não possuamos talento natural para a pregação. Essa foi a arma secreta que Nossa Senhora ensinou a São Domingos e ao Beato Alano, para converter os hereges e os pecadores.

A Santíssima Virgem, diziam São Bernardo e São Boaventura, não é menos grata e cortês do que as pessoas de qualidade bem educadas deste mundo. Ao contrário, ela as supera nisso, bem como em todas as outras perfeições. Sendo assim, se nós a honrarmos com respeito, Nossa Senhora jamais deixará de nos recompensar cem vezes mais pelas honras prestadas.

São Boaventura diz que a Mãe de Deus nos saúda com a graça sempre que a saudamos com a Ave-Maria. Quem de nós seria capaz de compreender as graças e as bênçãos que operam em nossas almas a saudação e os olhares benignos da Santíssima Virgem? No momento em que Santa Isabel ouviu a saudação da Mãe de Deus, ela foi cumulada pelo Espírito Santo, e a criança que levava em seu seio estremeceu de alegria (cf. Lc 1, 44). Da mesma forma, se nos tornarmos dignos da saudação e da bênção de Nossa Senhora, sem dúvida também seremos cumulados de graças e uma torrente de consolações espirituais correrá em nossas almas.

Nosso Senhor Jesus Cristo nos prometeu: “Dai e vos será dado” (Lc 6, 38). A respeito dessa passagem, o Beato Alano faz uma comparação:

Se eu vos devesse a cada dia cento e cinquenta diamantes, vós, ainda que fosseis meu inimigo, não me perdoaríeis? E, se fosse amigo, não me faríeis todos os favores que estivessem ao vosso alcance? Pois se quiserdes vos enriquecer dos bens de graça e de glória, saudai a Santíssima Virgem, honrai vossa boa Mãe.

Apresentai-Lhe a cada dia pelo menos cinquenta Ave-Marias, pedras preciosas que Lhe são mais agradáveis do que todas as riquezas da terra. O que não devereis esperar então da sua generosidade? Ela é nossa Mãe e nossa amiga. Ela é a Imperatriz do universo, e nos ama mais do que todas as mães e rainhas juntas amaram um homem mortal. Pois, diz Santo Agostinho, a caridade da Virgem Maria excede todo o amor natural de todos os homens e de todos os Anjos[6].

O grande valor espiritual da Ave-Maria

Certo dia, o Filho de Deus apareceu a Santa Gertrudes contando peças de ouro. Ela teve a ousadia de perguntar ao Senhor o que é que Ele contava. “Eu conto, respondeu Jesus Cristo, as tuas Ave-Marias, moeda com a qual compras o Paraíso”[7].

O douto e devoto Padre Suárez, da Companhia de Jesus, considerava tão grande o valor meritório da Saudação Angélica que, de bom grado, dizia que trocaria toda a sua ciência pelo valor de uma única Ave-Maria bem rezada.

O Beato Alano contava que uma religiosa, muito devota do Rosário, apareceu depois de morta a uma de suas irmãs e disse: “Se eu pudesse voltar ao meu corpo para somente rezar uma Ave-Maria, ainda que sem grande fervor, para ter o mérito dessa oração, de bom grado sofreria de novo todas as dores que sofri antes da morte”[8]. A esse respeito, é preciso acrescentar que ela tinha sofrido dores violentas no seu leito, durante seus muitos anos de enfermidade.

Michel de Lisle, Bispo de Salubre, discípulo e colega do Beato Alano de la Roche, disse que a Ave-Maria é o remédio para todos os males que nos afligem, desde que a recitemos devotamente em honra da Santíssima Virgem.

Assim, depois de conhecer melhor esta oração, quem não admirará a excelência do Santo Rosário, composto por estas duas divinas partes: a Oração do Senhor e a Saudação Angélica? Haverá oração mais agradável a Deus e a Virgem Santíssima, mais fácil, mais doce e mais salutar aos homens? Considerando as suas excelências, tenhamos sempre a Ave-Maria nos lábios e no coração, para honrar a Santíssima Trindade, para honrar Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, e sua Santíssima Mãe.

Nossa Senhora da Anunciação, rogai por nós!

Referências:


[1]  SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. A Eficácia Maravilhosa do Santo Rosário, p. 21.

[2]  Idem, p. 22.

[3]  Idem, p. 23.

[4]  Idem, ibidem.

[5]  Idem, p. 24.

[6]  Idem, p. 25-26.

[7]  Idem, p. 26.

[8]Idem, ibidem

 

Fonte: Canção Nova