Paternidade: a transformação profunda na identidade masculina

A paternidade transforma e traz a felicidade para a vida do homem

Não é novidade que a paternidade traz mudanças substanciais na vida de um homem. A felicidade de ter nos braços um ser que é um “pedaço” seu vem com uma espécie de “Combo”: perda de suas preciosas horas de sono, trocas intermináveis de fraldas, excremento, saliva, cólicas e gases acompanhadas de um choro estridente, além de cuidados extras com a casa, que podem gerar conflitos em uma identidade masculina muito estereotipada.

Aquele hobby de assistir a um filme, o futebol da semana (pode fazer a sua lista), e até mesmo a vida sexual terá que ser pausada ou drasticamente diminuída. E para os homens amantes das liberdades individuais, acostumados ao bem-estar pessoal e estacionados na zona do conforto, essa lista de exigências é uma espécie de visita ao purgatório, se não ao inferno.

Vantagens e mudanças na vida do homem

Então, qual a vantagem em ser pai? Que mudanças positivas a paternidade traz na vida de um homem?

A resposta a essa questão vai depender muito de quem vai enfrentar o desafio: o garoto ou o homem. Digo isso, porque, antes mesmo de me casar e sonhar com uma família, ouvi de um psicólogo a seguinte afirmação: “Se você quer ser um bom pai, procure resolver o filho dentro de você”. Na época, não entendi por que tal afirmação caiu em mim como uma espécie de tsunami, mas uma coisa eu sabia: o “menino” dentro de mim recusava-se em crescer, ele tinha medo. Procurei resolver minhas pendências, fui rever minha história e preparei-me melhor para ser pai. Mesmo assim, com o nascimento da minha primeira filha há poucos meses, a paternidade chegou com um impacto de realidade e exigências coroadas com um amor inexplicável por um ser tão indefeso e frágil.

Em termos psíquicos, a paternidade põe em movimento forças interiores que alteram a percepção de si. Há uma espécie de “chamado interior” para abandonar as fantasias e o conforto do mundo do menino e ingressar no universo adulto, marcado por doações e responsabilidades. Esses elementos, somados a uma boa dose de sacrifício, são componentes básicos para a entrada nesta nova fase, que – como em toda fase do desenvolvimento humano – provoca uma série de sentimentos e sensações ambíguas na identidade masculina, sobretudo o medo.

Quem é o homem-garoto?

Para o homem-garoto, mesmo sendo um pai biológico, o medo de que o filho lhe roube a liberdade de outrora faz dele uma espécie de progenitor resmungão. É aquele homem que reclama do choro do bebê, do cocô, dos brinquedos pelo chão, da companheira que não acalma o bebê, enquanto ele (o garotão) joga videogame na sala ou assiste ao futebol. É o homem que diz “eu até ajudo um pouco a minha mulher”, atribuindo a ela a responsabilidade exclusiva com a criança. Em outras palavras, para o homem-garoto, a paternidade será sempre um peso, e ele será um propagador desse acontecimento como um ‘atraso de vida’.

Não julguemos esse modelo, pois, geralmente, ele também foi vítima da ausência de um pai relativamente bom. Quantos rejeitam a paternidade ou não cumprem bem o seu papel de pai, porque não possuem um referencial interno? Quantos foram abandonados pelos seus pais biológicos? E quantos se sentem prejudicados, porque a figura paterna em suas vidas foi ou autoritária ou passiva demais? A prática clínica tem me permitido observar que essas questões são as que mais aparecem como fendas na alma dos homens, que se não são expostas e curadas, tornam-se um ciclo repetitivo, como dizia C.G.Jung “o que não é curado numa geração é passado para a outra”.

Quem é o homem-adulto?

Por outro lado, temos o homem-adulto, que também sente as angústias, o medo e o peso da responsabilidade, mas, por consciência, sabe que ele é muito mais do que um progenitor. É aquele que não se tornou refém de sua história e decidiu encarar a paternidade com otimismo e paixão, deixando-se moldar pelo dom de ser pai. É o homem que tenta acalmar a criança nas horas de cólica, para que a mulher descanse um pouco mais. Ele não se importa de também ter de acordar de 3 em 3 horas, lavar uma louça, arrumar a casa. Sabe que o filho não é uma responsabilidade exclusiva da mãe, e por isso apropria-se do que é seu. Para ele, a paternidade será sempre algo divino, e ele será propagador desse acontecimento como o mais sublime de toda a sua vida.

Sim, o filho é uma espécie de aguilhão, que nos empurra para uma nova fase de gratas surpresas internas e externas. Resistir, resmungar – e pior – não participar dessa aventura, que é formar um novo ser humano, trará grandes prejuízos para o homem enquanto pessoa, mas também para a criança, que poderá crescer insegura, sem referencial para enfrentar a vida no futuro.

A descoberta de ser pai

Se você é pai ou ainda pretende ser, e aceitou o desafio de participar da vida de seus filhos, parabéns! Você pegou o passaporte para a felicidade. Mas se ainda vê esse processo como padecimento, um fardo difícil de ser carregado, sugiro rever a sua história, sobretudo a relação com a figura paterna em sua vida. Como dizia Steve Biddulph no best-seller “Por que os Homens São Assim”, o pai é uma linha de contato da identidade masculina; se essa linha não estiver resolvida, a figura paterna “se arrastará atrás de você, atrapalhando todos os seus movimentos”.

Como pai, tenho deixado que essa vocação divina transforme o menino em um homem a cada dia que nasce, e considero esse o acontecimento mais positivo que a paternidade pode trazer na vida de um homem. Hoje, considero-me mais responsável, mais amoroso e afetivo, mais comprometido e apaixonado por minha esposa, que tem dado um show de maternidade. É verdade, tudo mudou e tudo ainda vai mudar muito, mas eu decidi crescer.

Daniel Machado – Psicólogo

Fonte: Canção Nova